Doenças neurológicas

Cachorro com movimentos involuntários, o que pode ser?

 
Carla Moreira
Por Carla Moreira, Médica veterinária. 28 outubro 2022
Cachorro com movimentos involuntários, o que pode ser?
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Movimentos involuntários ou tremores musculares consistem em movimentos oscilatórios rítmicos e mecânicos de determinada parte do corpo, podendo resultar de lesões em diferentes áreas do sistema nervoso central. Esses movimentos também são chamados de mioclonias, sendo popularmente conhecidos como “tique nervoso”.

Além das lesões neurológicas, outras causas podem estar envolvidas nos tremores dos cães, como frio, medo, ansiedade, agitação excessiva e estresse. Por isso, caso seu cachorro comece a tremer ou a ter contrações involuntárias em algum membro, você precisará investigar se alguma alteração no ambiente pode ter sido a causa. Na maioria dos casos será necessária uma visita ao médico veterinário, para que o animal seja avaliado e diagnosticado. Se você quer saber mais sobre o assunto, continue lendo este artigo do PeritoAnimal, no qual falaremos sobre o cachorro com movimentos involuntários, o que pode ser?

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Índice
  1. O que pode causar espasmos musculares em um cachorro?
  2. É normal o cachorro ter espasmos?
  3. O que são mioclonias?
  4. O que é a síndrome de Shaker?
  5. Tratamento para o cachorro com movimentos involuntários

O que pode causar espasmos musculares em um cachorro?

Espasmos musculares podem ocorrer como resultado da fadiga ou lesão muscular após exercícios físicos intensos, estresse, ansiedade, desidratação, falta de minerais, doenças que afetam o sistema nervoso (cinomose, epilepsia e outras), intoxicações (por medicamentos, alimentos, herbicidas, inseticidas, plantas, uso de venenos contra parasitas) ou até mesmo de origem congênita. Podem durar alguns segundos ou minutos, dependendo da causa.

A deficiência de cálcio pode resultar em espasmos musculares, evoluindo para convulsões. Tal condição pode ser vista em casos de eclampsia ou tetania puerperal em cadelas, ocorrendo nas primeiras semanas pós-parto, quando a lactação atinge seu pico.

As crises epilépticas são manifestações de distúrbios neurológicos decorrentes de descargas neuronais anormais e hipersincrônicas, caracterizadas por alterações estereotipadas e paroxísticas de comportamento[1].

As intoxicações são responsáveis por grande parte dos casos de espasmos musculares nos cães, sendo os pesticidas os maiores vilões. Essas substâncias podem agir diretamente no sistema nervoso central, causando estímulos inespecíficos sobre os neurônios, clinicamente visíveis por parestesia da língua e dos membros, intranquilidade, fotofobia, ataxia, mioclonias, depressão central, convulsões, coma e morte.

Cachorro com movimentos involuntários, o que pode ser? - O que pode causar espasmos musculares em um cachorro?

É normal o cachorro ter espasmos?

Não. O espasmo é justamente a demonstração de que algo não está normal no seu cachorro. Por isso, se ele estiver com movimentos involuntários, o mais recomendado é levá-lo a uma clínica veterinária.

O que são mioclonias?

Mioclonias são movimentos involuntários de instalação súbita e de duração breve, semelhantes à resposta do músculo à estimulação elétrica, causadas por contração muscular (mioclonia positiva) ou por interrupção da atividade muscular tônica (mioclonia negativa). Simplificando, a mioclonia é uma contração muscular breve, semelhante a um choque elétrico.

As mioclonias podem ser classificadas quanto à sua distribuição:

  • Focais: acometem somente um segmento corporal;
  • Segmentares: quando ocorrem em segmentos contínuos;
  • Multifocais: ocorrem em segmentos não contínuos;
  • Generalizadas: quando houver combinação de um segmento da coxa com outro qualquer.

Em cães, as mioclonias são uma sequela comum dos animais infectados pelo vírus da cinomose. A doença apresenta quatro fases, que podem ocorrer ao mesmo tempo ou separadamente: respiratória, gastrointestinal, nervosa e cutânea. Durante a fase nervosa, podem ocorrer alterações comportamentais (vocalização como se o animal estivesse sentindo dor, respostas de medo e cegueira), convulsões, contração rítmica persistente e indolor (mesmo durante o sono) de um ou de um grupo de músculos. Isso ocorre porque a infecção ativa um circuito elétrico semelhante a de uma marca-passo na medula espinhal, desencadeando sintomas cerebelares (mioclonia, alteração da coordenação motora), sintomas vestibulares (nistagmo, ataxia, cabeça pêndula), movimentos de andar em círculo e movimentos de pedalagem[2].

O que é a síndrome de Shaker?

A Síndrome de Shaker ou síndrome do cão tremedor se manifesta com tremores generalizados que usualmente afetam a cabeço e o corpo, podendo causar a total incapacidade de funções básicas, como alimentação e locomoção, dependendo da severidade.

O distúrbio desenvolve-se principalmente em animais de 1 a 5 anos de idade, com peso inferior a 15 kg. Os tremores pioram com o movimento e diminuem com o repouso, podendo cessar durante o sono. Os sinais clínicos incluem ainda inclinação da cabeça, hipermetria (alteração da coordenação de movimentos que ultrapassam o ponto fixado e observado) e resposta diminuída do reflexo de ameaça.

O diagnóstico é realizado excluindo-se outras possíveis causas de tremores e com base na resposta dos sintomas ao tratamento com corticoides. Deve-se descartar distúrbios como intoxicação por produtos químicos, plantas tóxicas e micotoxinas (toxinas de fungos), problemas congênitos, efeitos adversos de medicações, infecções virais ou bacterianas e causa autoimune.

Tratamento para o cachorro com movimentos involuntários

O tratamento deverá ser direcionado para a causa dos movimentos involuntários no cachorro. No caso da cinomose, por exemplo, a mioclonia é considerada intratável e irreversível. A administração de corticoides pode ter algum valor em cães com a doença no sistema nervoso central por infecção pelo vírus, sendo que sua administração em cães com quadro agudo é contraindicada.

No caso da síndrome do cão tremedor, o tratamento deverá ser prescrito pelo médico veterinário, que avaliará o animal e solicitará exames complementares. O uso de corticoides associados ou não ao Diazepam, em doses crescentes, apresentam bons resultados.

A intoxicação por chumbo interfere nas vias metabólicas de síntese da hemoglobina e da maturação dos eritrócitos, que se tornam frágeis (tempo de vida diminuído) e com capacidade reduzida de carrear o oxigênio, levando à isquemia. Essa menor quantidade de oxigênio gera sinais neurológicos, edema cerebral e lesões neuronais no SNC. Os cães intoxicados podem apresentar convulsões, demência, pressão da cabeça contra objetos, bruxismo, vocalizações, mordidas sem motivo aparente, andar em círculos e compulsivos e mioclonias. O tratamento deverá controlar as convulsões e tratar o edema cerebral[2].

Agora que você já sabe o que pode ser quando o cachorro tem movimentos involuntários, recomendamos o vídeo a seguir no qual falamos sobre 10 causas que levam um cachorro a ficar cambaleando:

 

Este artigo é meramente informativo, no PeritoAnimal.com.br não temos capacidade para receitar tratamentos veterinários nem realizar nenhum tipo de diagnóstico. Sugerimos-lhe que leve o seu animal de estimação ao veterinário no caso de apresentar qualquer tipo de condição ou mal-estar.

Se deseja ler mais artigos parecidos a Cachorro com movimentos involuntários, o que pode ser?, recomendamos-lhe que entre na nossa seção de Doenças neurológicas.

Referências
  1. Torres, B.B.J. et al. Atualização em epilepsia canina parte II – Terapia antiepiléptica. Medvep – Revista Científica de Medicina Veterinária – Pequenos Animais e Animais de Estimação, v.10(32), p.141-149, 2012. Disponível em: https://medvep.com.br/wp-content/uploads/2020/06/Atualiza%C3%A7%C3%A3o-em-epilepsia-canina-parte-II-%E2%80%93-Terapia-antiepil%C3%A9ptica.pdf. Acesso em 27/10/2022.
  2. Nascimento, D.N.S. Cinomose canina – Revisão de Literatura. Universidade Rural do Semi-Árido, 2009. Disponível em https://www.equalisveterinaria.com.br/wp-content/uploads/2018/12/Daniela_cinomose_concluida1-pdf.pdf. Acesso em 27/10/2022.
  3. Monteiro, E.S. et al. Intoxicação em cão filhote após ingestão acidental de pilha alcalina – Relato de caso. Revista Científica Eletrônica de Medicina Veterinária, n.20, 2013. Disponível em http://faef.revista.inf.br/imagens_arquivos/arquivos_destaque/vgi1ZW6NAvUln2T_2013-6-20-17-58-25.pdf. Acesso em 27/10/2022.
Bibliografia
  • Caramalac, S.M. et al. Tremor de cabeça idiopático em cães – relato de dois casos. Arq.Bras. Med. Vet. Zootec., v.70, p.1731-1735, 2018. Disponível em https://www.scielo.br/j/abmvz/a/KztgJr6CNrJLQGm4xpsm5gm/?format=pdf&lang=pt. Acesso em 27/10/2022.
  • Hunning, P.S. et al. Síndrome do cão tremedor. Acta Scientiae Veterinariae, v.38(2), p.209-212, 2010. Disponível em https://www.ufrgs.br/actavet/38-2/900.pdf. Acesso em 27/10/2022.
  • Rosso, A.L., Nicaretta, S.H., Mattos, J.P. Diagnóstico e Tratamento Atual das Mioclonias – Revisão de literatura. Rer. Bras. Neurol., v.47(3), 2011. Disponível em http://files.bvs.br/upload/S/0101-8469/2011/v47n3/a2750.pdf. Acesso em 27/10/2022.
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