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Como punir um cachorro?

 
Por Marta Sarasúa, Etóloga e auxiliar veterinária. 24 maio 2022
Como punir um cachorro?

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Quando decidimos adotar um filhote ou um cachorro adulto, este se torna mais um membro da família e é nossa responsabilidade proporcionar-lhe uma boa educação, bem como cobrir todas suas necessidades e garantir uma ótima qualidade de vida, livre de sofrimento, medo e estresse. No entanto, muitos tutores consideram que a melhor forma de ensinar seus cachorros como devem se comportar é através do castigo, repreendendo-lhes toda vez que têm comportamentos indesejáveis. Frases como "meu cachorro sabe que o que fez é errado" reforçam a crença de que gritar, bater ou intimidar os cães é algo útil e necessário para educá-los, quando não é assim.

O adestramento tradicional, baseado em corrigir comportamentos através de ferramentas de punição e ameaças, gera, entre muitas outras consequências negativas, um estado de ansiedade permanente nos cachorros, que, em muitos casos, inibem seu comportamento pela simples razão de ter medo de seus tutores. Isso, a longo prazo, pode causar problemas de saúde no animal e alterações graves de comportamento. Para evitar isso, no PeritoAnimal contamos tudo o que você precisa saber sobre o castigo e como pode afetar no processo de educação do seu peludo. Descubra como punir um cachorro sem que isso implique em um sofrimento para ele nem uma experiência negativa, não perca!

O que é a punição em cachorros?

No âmbito do behaviorismo e educação canina, é considerado um castigo toda ação com o potencial de causar uma redução na frequência, duração ou intensidade do comportamento ao aplicá-la após o surgimento de tal comportamento. Ou seja, castigar um cachorro não significa apenas bater nele ou causar um dano físico, muitas outras ações como gritar, imobilizá-lo, ignorá-lo, impedir o acesso a algum lugar ou assustá-lo também podem ser punições em determinados contextos.

Por sua vez, as punições são divididas, assim como os reforços, em dois tipos: positiva e negativa. Embora ambas tenham o mesmo objetivo, sua aplicação e consequências são um pouco diferentes, como veremos a seguir.

Aplicação da punição positiva em cachorros

O castigo positivo consiste em adicionar um estímulo aversivo ao ambiento do animal no momento em que ele realiza algum comportamento indesejado, por exemplo, empurrar, puxar a guia, gritar ou ativar uma coleira de choque. Os tutores realizam este tipo de punição com o objetivo de que o cachorro deixe de realizar a ação em questão, mas a maioria deles desconhece as implicações físicas e emocionais que este tipo de prática pode acarretar ao cachorro.

Em muitas ocasiões, o cachorro não elimina nem reduz seu comportamento após receber a punição, o que é um claro indicativo de que tal punição não é útil, pois o cachorro não está entendendo quais são nossas intenções e, portanto, não está aprendendo nada do que pretendemos ensinar. Um exemplo muito simples é o caso do cachorro que late toda vez que a campainha de casa toca e que, embora seja repreendido por isso, volta a latir novamente na próxima vez que alguém toca.

Por que isso acontece? Em primeiro lugar, porque neste caso o tutor ou tutora se concentra em tentar inibir o comportamento ao invés de se perguntar por que o cachorro late quando batem na porta e trabalhar a causa do comportamento. Além disso, está tentando eliminar um comportamento que é completamente natural na espécie canina (algo como se fossêmos repreendidos por falar), o que se torna frustrante e dificulta ainda mais para o cachorro entender o que pedimos. Finalmente, tenha em mente que ao gritar ou bater no cachorro, o tutor está adicionando mais tensão a um momento que já é excitante, o que fará com que o animal se altere ainda mais e possa chegar a reagir de maneira explosiva ou até perigosa.

Em outras ocasiões, a punição positiva provoca uma rápida redução na frequência ou duração de alguns comportamentos, o que faz com que os tutores pensem que sua metodologia foi a mais bem sucedida. No entanto, embora para a parte humana o resultado tenha sido satisfatório, para o cão sempre acarretará consequências negativas em maior ou menor grau.

Quando aplicar a punição positiva em cachorros?

Quando surge a oportunidade de realizar algum comportamento desejado e sabendo que será punido por isso, o animal entra em uma situação de conflito, o que gera muito estresse, que pode se tornar crônico. Em função da personalidade do cachorro, de sua experiência e das condições do seu ambiente, o mais provável é que essa situação de conflito se resolva de uma das seguintes maneiras:

  • O cachorro aprende a inibir certos comportamentos na presença dos seus tutores por medo de punição, mas os realiza quando eles não estão presentes.
  • O cachorro inibe completamente certos comportamentos por medo da punição, mas procura outros comportamentos alternativos para poder saciar suas necessidades, expressar sua frustração ou tentar acalmar sua ansiedade, os quais podem ser ainda mais problemáticos ou prejudiciais.
  • O cachorro inibe completamente quase todos seus comportamentos por medo da punição, entrando em um estado de letargia e apatia similar a uma depressão, conhecido como indefesa aprendida.

Em todos esses contextos a emoção predominante sempre é o medo, o que nos leva a conclusão de que a aplicação sistemática de punições positivas causa danos emocionais nos animais e não é recomendado em nenhum caso.

Aplicação da punição negativa em cachorros

A punição negativa consiste em eliminar do ambiente do animal um estímulo que é agradável para ele após ele realizar o comportamento indesejado. Alguns exemplos de punição negativa podem ser retirar a atenção do cachorro, parar de brincar com ele ou negar-lhe um petisco.

A punição negativa sempre teve uma reputação melhor que a punição positiva, pois é verdade que permite eliminar ou reduzir certos comportamentos sem necessidade de intimidar ou agredir o animal, simplesmente baseando-se na ideia de deixar que um comportamento se extinga retirando o reforço. No entanto, a punição negativa tem um problema que é, em muitas ocasiões, resulte complicado aplicá-la corretamente e requer uma certa experiência do tutor. Por um lado, o tutor deve se certificar de que, no momento da aplicação da punição negativa, tenha algo no ambiente que possa retirar e tenha um papel reforçador para o animal, pois, de outra maneira, não terá nenhum efeito sua retirada. Por outro lado, a punição negativa não é eficaz para eliminar qualquer comportamento, pois aqueles que são auto-reforçados não serão facilmente extintos através dessa prática.

Quando e como aplicar a punição negativa em cachorros?

Quando falamos de eliminar comportamentos operantes, ou seja, aqueles que o cachorro aprendeu a fazer e repete porque os associou a um reforço (por exemplo, latir para que o tutor jogue a bola), a punição negativa pode ser útil e, evidentemente, é menos prejudicial que a positiva. Neste caso específico, a punição consistiria em parar completamente a brincadeira no momento em que o cachorro começa a latir, guardando a bola. Quando os latidos cessam ou o animal realiza um comportamento mais adequado, a brincadeira continua. Dessa forma, como o cão não obtém o que espera, a associação entre o comportamento e o reforçador é enfraquecida e a primeira acaba se extinguindo.

Mitos sobre punir um cachorro

Agora que sabemos as diferentes maneiras de punir um cachorro e como não devemos fazer isso, vamos repassar alguns dos mitos mais difundidos para terminar de entender esses conceitos de uma forma mais prática:

"Meu cachorro sabe o que fez de errado"

Esta é uma das frases que mais escutamos entre os tutores, principalmente quando chegam em casa e descobrem que seu peludo se aproxima deles de cabeça baixa depois de ter feito algum estrago em sua ausência. Quando castigado, o cachorro esconde o rabo entre as patas, se lambe ou deita no chão, o que muitas vezes é interpretado erroneamente como um pedido de desculpas ao reconhecer que se comportou mal.

A realidade é que essas posturas corporais e expressões faciais são, simplesmente, a forma que os cachorros têm de "apaziguar" o outro indivíduo quando percebem que estão alterados ou sentem que estão em perigo, em nenhum caso é um reconhecimento de culpa ou um pedido de desculpa. Além disso, e é muito importante ter isso em mente, os cachorros só podem associar a punição com o evento ocorrido imediatamente antes ou durante sua aplicação. Portanto, se você repreender seu cachorro ao chegar em casa, o cão jamais entenderá o motivo da punição, pois é provável que tenha passado horas desde que ele mordeu o sofá ou fez xixi no tapete.

"Meu cachorro se comporta mal por vingança, porque eu o puni"

Muitos tutores associam certos comportamentos indesejáveis dos cachorros com um sentimento de rancor ou com um desejo do seus peludos de "incomodá-los". A verdade é que emoções como o ódio, o desejo de vingança ou o remorso são subjetivas e exclusivamente humanas, portanto seu cachorro não as sentirá.

Se, depois de repreendê-lo, ele repetir o comportamento indesejado, provavelmente seja porque a punição não foi aplicada de forma eficaz ou porque não existe uma boa comunicação entre cão e tutor.

"As ferramentas de punição não machucam o cachorro"

Outra afirmação que se ouve muito, principalmente entre os defensores do adestramento tradicional, é aquela que assegura que ferramentas como coleiras de choque, de coleiras pontiagudas ou elétricas não são dolorosas para o cachorro se utilizadas corretamente. No entanto, existem evidências de diferentes tipos de lesões que esses instrumentos causaram nos cachorros, desde queimaduras até colapsos traqueais ou asfixia.

Não importa quanta experiência você tenha em seu uso ou quanto aconselhamento profissional você tenha, essas coleiras sempre implicam um certo risco para o animal tanto físico como, claro, emocional e psicológico.

Como punir um cachorro? - Mitos sobre punir um cachorro

Como corrigir um cachorro?

Educar um cachorro sem castigá-lo é possível utilizando metodologias de trabalho respeitosas, empáticas e baseadas no reforço positivo. Hoje em dia, muitas escolas de educação canina, treinadores e etólogos profissionais empregam técnicas e exercícios de modificação comportamental adaptados ao caso específico de cada cachorro, colocando seu bem-estar integral em primeiro lugar e compreendendo quais são suas necessidades e comportamentos normais como espécie enquanto ajudam os tutores a criar um vínculo saudável com seus peludos.

É fundamental avaliar muito bem a metodologia empregada por um profissional e, se possível, pedir referências sobre seu trabalho ou ter uma entrevista prévia com ele ou ela antes de colocar em suas mãos a educação do nosso peludo.

Agora, se o que você quer é aprender sozinho como corrigir o cachorro quando ele faz algo errado sem utilizar punição, o uso do reforço positivo também é a melhor opção. O reforço positivo consiste em reforçar aqueles comportamentos desejados e ignorar os indesejados. Desta forma, o cachorro entende o que gostamos e o que não gostamos, enquanto reforçamos o vínculo recompensando o "bom comportamento". Da mesma forma, nos casos em que ignorar o comportamento não funciona porque é auto-reforçador, podemos incluir alternativas que consideramos adequadas. Temos um claro exemplo disso em filhotes quando estão na etapa de morder tudo o que encontram. Em vez de castigar o cachorro ou ignorá-lo, oferecemos um brinque que ele possa morder e o recompensaremos quando começar a brincar com ele. Nos seguintes artigos falamos mais profundamente da educação de filhotes e cachorros adultos:

Dito isso, vejamos a seguir algumas das situações mais comuns como exemplo:

Como punir um cachorro quando ele urina?

Os cachorro podem urinar em casa por diferentes motivos, por exemplo, se sofrem de ansiedade por separação, se sofrem da síndrome da disfunção cognitiva ou se se sentem assustados ou muito excitados. No caso dos filhotes, é muito comum eles urinarem dentro do lar, pois ainda não têm o controle total do seu esfíncter e precisam fazer suas necessidades com mais frequência.

Seja qual for o motivo, um cão não deve ser punido por urinar dentro de casa, pois este não é um método eficaz e, além disso, pode causar medo no animal, que provavelmente começará a se esconder para fazer xixi sem ser visto. O ideal neste caso é acompanhar a frequência com que o cachorro urina em casa e estar bem atento ao contexto no qual ele faz isso para poder identificar a causa. Uma vez feito isso, introduza mais passeios na rotina do seu peludo, leve-o por áreas amplas e tranquilas e reforce-o com sua comida ou brinquedo favorito toda vez que urinar na rua. Se for um filhote que ainda não pode sair na rua, não perca este artigo: "Como ensinar um filhote a fazer suas necessidades tapete higiênico?".

Como punir um cachorro que morde?

Morder é um comportamento natural nos cachorros e faz parte de sua maneira normal de brincar, tanto conosco como com outros animais. Se punirmos um filhote ou um cachorro adulto por ser muito brusco brincando, podemos criar uma certa frustração, que ele descarregará, provavelmente, mordendo outros objetos que estejam ao seu alcance ou ou se irritando conosco. A melhor opção nesses casos é ensinar seu peludo desde pequeno a inibir sua mordida, ou seja, evitar utilizar a boca com muita intensidade quando brincam conosco e, para isso, é fundamental oferecer sempre uma alternativa que ele possa mordiscar, como um brinquedo, e reforçar toda vez que ele utilize.

Por outro lado, se o cachorro se comporta de maneira agressiva ou violenta com outros animais ou tenta morder algum membro da família, a punição é totalmente contraindicada, pois pode adicionar mais tensão à situação, que para o cachorro já é incômoda, e aumentar a probabilidade de ocorrer um ataque. Para trabalhar este problema, é conveniente contar com a ajuda de um profissional que o aconselhe e o ajude a compreender o que seu peludo sente e quer expressar com seu comportamento.

Como punir um cachorro que quebra as coisas?

Morder e quebrar objetos é um entretenimento fantástico para os cachorros, principalmente para os mais jovens e travessos e, embora seja irritante para nós, para eles destruir brinquedos, sapatos ou móveis é um comportamento completamente natural, então não tem sentido puní-los por isso. Mostrar a destruição, gritar ou bater n focinho deles com aquilo que eles quebraram não será útil em nenhum caso, ainda menos se tiver passado um tempo entre o comportamento do cachorro e a chegada do castigo.

Os filhotes e cachorros que tendem a ficar entediados quando ficam sozinhos em casa ou que sofrem de ansiedade por separação são os mais propensos a destruir objetos, seja por diversão ou para reduzir seus níveis de estresse. Nesses casos, devemos evitar sempre deixar ao seu alcance objetos de valor ou que possam ser engolidos, tendo em mente que as coisas que mais nos cheiram (nossa roupa, o controle remoto da TV, um cobertor, etc.) são os que frequentemente mordem. Uma vez criado um espaço livre de perigo, ofereça ao seu peludo brinquedos interativos que o estimulem e o mantenham distraído. Os brinquedos recarregáveis, as almofadas olfativas, os lickimats ou os petiscos naturais são opções fantásticas para saciar as necessidades do seu cachorro e relaxá-lo. Claro, se você der algum brinquedo ou petisco que possa estilhaçar ou que contenha pelas pequenas que o animal possa quebrar ou engolir, faça-o sempre sob sua supervisão.

Como você pode ver, punir seu cachorro não é algo recomendado devido às consequências que pode causar nele. Apenas a punição negativa pode ser aplicada em casos muito pontuais e sempre sob orientação profissional. O ideal, sempre, é empregar métodos alternativos que mantenham o bem-estar do animal e, além disso, reforcem o vínculo de vocês. Neste outro artigo falamos sobre o que fazer com um cachorro destruidor.

Se deseja ler mais artigos parecidos a Como punir um cachorro?, recomendamos-lhe que entre na nossa seção de Educação básica.

Bibliografia
  • Domjan, M. (2010). PRINCIPIOS DE APRENDIZAJE Y CONDUCTA (6a ed.). Cengage Learning Editores S.A. de C.V.
  • Otra vuelta de tuerca al castigo negativo. (2010, marzo 12). Adiestramiento EDUCAN. Disponível em: <https://www.adiestramientoeducan.com/lacajaverde/otra-vuelta-de-tuerca-al-castigo-negativo>. Acesso em 24 de maio de 2022.

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