Tendemos a pensar que é injusto manter os gatos por toda a vida fechados entre quatro paredes, com as janelas ou a varanda como única forma de conhecer o mundo exterior. Nesse ponto, muitas pessoas consideram levar seus gatos para passear com coleira, mas isso é realmente uma boa ideia?
Veterinários e etólogos coincidem em um alerta claro: embora seja possível, levar um gato para passear não é uma brincadeira nem uma moda e, se for feito de forma errada, as consequências psicológicas para o animal podem ser graves. Neste artigo do PeritoAnimal, te contamos se pode passear com gato na coleira e o que isso implica.
Quais as diferenças entre passear com gato e cachorro na coleira?
É um erro habitual pensar que um gato é “um cachorro pequeno que mia”. No entanto, suas origens biológicas são totalmente opostas. Para os cães, o passeio é uma atividade que vai muito além de fazer suas necessidades: é conexão com seu humano, exploração e socialização com outros cães. O gato, por outro lado, precisa ter um controle total de seu território. Se não for acostumado desde pequeno, impor-lhe uma coleira e sair para passear pode representar uma experiência muito estressante.
Um dos principais problemas que o uso da coleira apresenta nos gatos é que não se cumpre um dos elementos mais importantes do comportamento felino: “o senso de agência”, que basicamente “quer dizer que o animal pode decidir o que faz em cada momento”. Ao estar preso, se detectar um estímulo que não lhe interessa ou se sentir desconfortável, não tem a liberdade de sair correndo para casa, para seu lugar seguro, e isso gera frustração e ansiedade.
Os veterinários apontam que ainda que há pessoas que pensem que um gato é um cachorro pequeno, esses passeios podem ser mais estressantes do que divertidos.
Além disso, os gatos são sociais facultativos. Na natureza formam colônias, especialmente as fêmeas para criar, mas sua sociabilidade está vinculada à abundância de recursos e a um território conhecido. Fora de seu território, os gatos desconhecidos não são exatamente “amigos”.
Portanto, a grande diferença em relação ao cachorro é que o gato não costuma encontrar segurança no grupo quando está fora de seu ambiente. Para um felino, um espaço novo é sinônimo de vulnerabilidade.
Quais são os riscos de passar com um gato?
A rua não é apenas estressante, pode ser perigosa para sua integridade física se não forem consideradas as medidas de segurança adequadas. A expectativa de vida de um gato com acesso ao exterior sem supervisão nem controle pode ser reduzida à metade devido aos perigos que eles não conseguem administrar. Existem doenças como a imunodeficiência felina que se transmitem por arranhões, ou parasitas como os coccídios que podem contrair ao beber água de uma poça.
Então, afinal, o gato pode ir na coleira?
Por isso, abrir a porta para que o gato saia para passear sem vigilância não é a melhor ideia. É melhor levá-lo com coleira? Já vimos que também não é uma solução universal, segundo os especialistas. Para um gato, a rua é um bombardeio de odores, ruídos e seres estranhos que podem não ser bem tolerados. Esse “excesso de informação sensorial” pode resultar em um bloqueio e “estresse muito importante”.
Se o gato não estiver habituado, entrará no que os especialistas chamam de “um estado de pânico agudo”: tentará se soltar da coleira a todo custo, podendo se machucar, se perder ou, pelo medo que sente, atacar seu próprio tutor.
Quando é bom para o gato passear?
Isso significa que está proibido levar um gato para passear? Não, mas os especialistas insistem que depende do gato e de como o levamos para sair. O primeiro que se deve avaliar é se o gato realmente tem interesse. Há muitos gatos que não têm nenhum interesse em sair, por isso não devem ser levados para passear.
O perfil apto costuma ser um gato “corajoso e explorador”, confiante e que não se bloqueia diante de estímulos novos. No entanto, para que um gato adulto desfrute da rua, o ideal é ter iniciado o processo quando ainda é um filhote.
Isso tem uma explicação científica: entre as 2 e as 9 semanas de vida, aproximadamente, os gatos experimentam seu período crítico de socialização. O que aprenderem e vivenciarem de forma positiva nesse tempo ficará registrado como parte de seu mundo seguro. Se um filhote se acostumar ao arnês e aos estímulos do exterior de forma gradual, será um adulto capaz de desfrutar passeando com coleira.
Em contrapartida, um gato que sempre viveu dentro de casa e sai pela primeira vez já sendo adulto, é muito provável que interprete o mundo exterior como um ambiente hostil. Embora, é claro, haja exceções e, por isso, os especialistas recomendam conhecer nossos gatos antes de nos aventurarmos a sair.
Além de levar em conta a idade, se você decidir tentar levar seu gato para passear, a regra de ouro é clara: nos passeios, eles mandam. A coleira não é para levá-los de um lugar a outro, são eles que nos passeiam.
Arnês, mochila e calma: o que você nunca deve esquecer antes de sair de casa
Se o seu gato se encaixa no perfil adequado, ou ainda é filhote, o sucesso depende de uma introdução lenta. Os especialistas coincidem que a rua nunca deve ser o primeiro passo, de modo que o treinamento começa em casa. A recomendação é habituar o gato ao arnês mediante reforço positivo, associando-o às suas guloseimas favoritas.
Uma vez que o gato se move com naturalidade, o exterior deve ser abordado com uma mochila de transporte como “base de operações”. Essa bolsa não é apenas para o trajeto, mas um refúgio seguro a partir do qual o gato pode observar o ambiente sem se sentir exposto.
O local também é fundamental: tem que ser tranquilo e privado, não uma rua movimentada. A ideia é oferecer estímulos controlados em horários de pouco ruído, permitindo que seja sempre o felino quem decida quando sair de sua mochila e quando voltar para ela.
Por fim, ambos ressaltam que jamais se deve forçar o gato. Se ele não quiser sair, é fundamental respeitá-lo.
Gato que passeia também precisa brincar em casa?
Muitos tutores acreditam, de forma equivocada, que o passeio substitui o enriquecimento ambiental, mas os especialistas advertem que isso pode gerar problemas de comportamento por frustração.
Os gatos em casa mantêm a neotenia (caráter de brincadeira de filhotes) porque se sentem seguros. Se o gato é um animal explorador, temos que oferecer opções dentro de casa: cantos, zonas por onde ele se mova... emular essa possibilidade de exploração.
Quando você fecha a porta não acontece nada porque o território seja pequeno, mas você tem que se esforçar mais para que aquele território tenha muito valor e seja estimulante. O sucesso não está nos 20 minutos de passeio, mas nas 23h horas restantes dentro de casa.
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