Cobra-cega tem veneno?

Cobra-cega tem veneno?

A cobra-cega ou cecília é um animal que desperta muitas curiosidades e que ainda é pouco estudado por cientistas. Há dezenas de espécies diferentes, aquáticas e terrestres, que podem chegar a quase um metro de comprimento. Um recente estudo publicado por brasileiros em julho de 2020 aponta várias novidades sobre ela.

E é isso que vamos contar para você aqui no PeritoAnimal neste artigo cobra-cega tem veneno? Descubra se a cobra-cega é venenosa, suas características, onde vivem e como é sua reprodução. Além disso, aproveitamos para apresentar algumas cobras venenosas e outras não peçonhentas. Boa leitura!

O que é a cobra-cega

Você sabia que a cobra-cega (espécies da ordem Gymnophiona), ao contrário do que o nome diz, não é uma cobra? Pois é. As também conhecidas como cecílias são, na realidade, anfíbios, e não répteis, apesar de se parecerem mais com serpentes que com sapos ou salamandras. Elas, portanto, pertencem à classe Amphibia, que está dividida em três ordens:

  • Anuros: sapos, rãs e pererecas
  • Caudados: tritões e salamandras
  • Gimnofionos: cecílias (ou cobras-cegas). A origem dessa ordem vem do grego: gymnos (nu) + ophioneos (parecido com serpente).

Características da cobra-cega

As cobras-cegas têm esse nome pela forma que possuem: corpo comprido e alongado, além de serem ápodes, ou seja, não possuírem patas.

Seus olhos são extremamente atrofiados, por isso são popularmente chamadas assim. A razão disso é justamente por sua principal característica comportamental: as cobras-cegas vivem sob a terra escavando o solo (são denominados animais fossoriais), onde há pouca ou nenhuma luminosidade. Nesses ambientes normalmente úmidos, se alimentam de pequenos invertebrados, como cupins, formigas e minhocas. Como passam grande parte da vida escondidas no solo, raramente são vistas. Quando encontradas, não devem ser retiradas do ambiente, pois sua pele úmida é sensível.

As cecílias conseguem distinguir, no máximo, entre claro e escuro. E para auxiliá-las na percepção do ambiente e na localização de presas, predadores e parceiros para reprodução, elas possuem um par de pequenas estruturas sensoriais em forma de tentáculos na cabeça.[1]

Sua pele é úmida e coberta por escamas dérmicas, que são pequenos discos achatados localizados em dobras transversas ao longo do corpo formando anéis que ajudam na locomoção debaixo da terra.

Diferentemente das serpentes, com as quais normalmente as cobras-cegas são confundidas, estas não possuem língua bifurcada e sua cauda ou é curta ou simplesmente não existe. Em várias espécies, as fêmeas cuidam de seus filhotes até adquirirem independência.

Há cerca de 55 espécies diferentes de cobras-cegas, as maiores medem até 90 cm de comprimento, mas têm apenas cerca de 2 cm de diâmetro, e vivem em regiões tropicais.

Reprodução da cobra-cega

A fecundação de cecílias é interna e, depois disso, as mães botam ovos e os guardam nas dobras do seu corpo até que eclodam. Algumas espécies, quando filhotes, se alimentam da pele da mãe. Além disso, há ainda espécies vivíparas (animais que têm o desenvolvimento embrionário dentro do corpo materno).

Cobra-cega tem veneno?

Até muito pouco tempo atrás acreditava-se que as cobras-cegas eram totalmente inofensivas. Afinal, estes animais não atacam os seres humanos e não há registros de pessoas que foram envenenadas por eles. Por isso, a cobra-cega não era considerada perigosa.

O que já se sabia é que elas secretam uma substância através da pele que as deixa mais viscosas e que também possuem grande concentração de glândulas de veneno na pele da cauda, como forma de defesa passiva de predadores. É o mesmo mecanismo de defesa de rãs, sapos, pererecas e salamandras, em que o predador acaba se envenenando quando morde o animal.

No entanto, um artigo publicado na edição de julho de 2020 da revista especializada iScience[2], por pesquisadores do Instituto Butantan, em São Paulo, com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), aponta que os animais podem, sim, ser peçonhentos, o que seria uma característica inédita entre os anfíbios.

O estudo aponta que as cecílias não apenas possuem glândulas venenosas cutâneas, como outros anfíbios, como também têm glândulas específicas na base dos dentes que produzem enzimas comumente encontradas em venenos.

A descoberta dos cientistas do Instituto Butantan é que as cobras-cegas seriam os primeiros anfíbios a possuir uma defesa ativa, ou seja, que ocorre quando o veneno é usado para atacar, comum entre serpentes, aranhas e escorpiões. Essa secreção que sai das glândulas serve ainda para lubrificar as presas e facilitar sua deglutição. A compressão de tais glândulas durante a mordida liberaria o veneno, que penetra na ferida causada, o mesmo que acontece com o dragão-de-komodo, por exemplo.[3]

Os cientistas ainda não comprovaram que a secreção liberada pelas glândulas seja capaz de causar envenenamento. A presença de enzimas associadas a venenos, por si só, não esclarece seus efeitos nem o risco para as pessoas. Por precaução, o melhor é não manusear cecílias.

Na imagem abaixo, confira a boca de uma cecília da espécie Siphonops annulatus. É possível observar as glândulas dentárias semelhantes às de serpentes.

Imagem: Reprodução/Instituto Butantan

Cobras venenosas

E se ainda não há uma conclusão concreta sobre o perigo que as cobras-cegas podem representar, o que sabemos é que há uma série de cobras - agora sim, cobras de verdade - bastante venenosas.

Entre as características frequentemente associadas às cobras venenosas estão pupilas elípticas e cabeça mais triangular. Algumas delas possuem hábitos diurnos e outras noturnos. E os efeitos de seus venenos podem variar de acordo com a espécie, assim como os sintomas em nós, se formos picados. Essas características, porém, não são suficientes para identificar uma espécie com segurança, pois há variações entre as cobras e semelhanças entre espécies. Daí que vem a importância de saber a espécie da cobra em caso de algum acidente, para que os médicos possam atuar rapidamente com o antídoto correto e prestar os primeiros socorros em caso de picada de cobra. Ao encontrar uma cobra, mantenha distância e não tente capturá-la.

Aqui estão algumas das cobras venenosas presentes no Brasil:

  • Coral Verdadeira
  • Cascavel
  • Jararaca
  • Surucucu pico-de-jaca

E se você quer conhecer os animais mais venenosos do mundo, assista ao vídeo:

Cobras não venenosas

Há várias cobras consideradas inofensivas e que, portanto, não possuem veneno. Algumas delas até produzem veneno, mas não possuem as presas específicas para inocularem veneno em suas vítimas. Usualmente estas cobras não venenosas têm cabeça e pupilas arredondadas. Mesmo as espécies sem veneno podem morder se forem ameaçadas, por isso não é recomendável tentar pegá-las.

Entre as cobras não venenosas, estão:

  • Jiboia (Boa constrictor)
  • Sucuri (Eunectes murinus)
  • Caninana (Spilotes pullatus)
  • Coral falsa (Siphlophis compressus)
  • Píton (Python)

Agora que você já conhece melhor a cobra-cega e viu que ela na realidade é um anfíbio e também já sabe de algumas cobras venenosas e outras inofensivas, você pode se interessar por este outro artigo com os 15 animais mais venenosos do mundo.

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Referências
  1. BLOG do NUROF: Núcleo Regional de Ofiologia da Universidade Federal do Ceará. Parece mas não é: cobras-cegas são anfíbios. Disponível em: <https://blogdonurof.wordpress.com/2011/05/22/parece-mas-nao-e-cobras-cegas-sao-anfibios-2/>. Acesso em 6 de outubro de 2020.
  2. ISCIENCE. Morphological Evidence for an Oral Venom System in Caecilian Amphibians. Disponível em: <https://www.cell.com/iscience/fulltext/S2589-0042(20)30419-3>. Acesso em 6 de outubro de 2020.
  3. AGENCIA FAPESP. Glândulas de veneno similares às de serpentes são encontradas em anfíbios. Disponível em: <https://agencia.fapesp.br/glandulas-de-veneno-similares-as-de-serpentes-sao-encontradas-em-anfibios/33556/>. Acesso em 6 de setembro de 2020.
  4. Morphological Evidence for an Oral Venom System in Caecilian Amphibians (iScience)
  5. Anfíbios que inoculam veneno (Pesquisa FAPESP)
Bibliografia
  • ARRAIS, Antonia Adriana Mota. O ensino de zoologia por meio de metodologias diferenciadas: o caso dos anfíbios. 2013. Disponível em: <https://www.bdm.unb.br/bitstream/10483/6937/1/2013_AntoniaAdrianaMotaArrais.pdf>. Acesso em 5 de outubro de 2020.
  • BIO CURIOSIDADES. Cecília. Disponível em: <http://www.ninha.bio.br/biologia/cecilias.html>. Acesso em 6 de outubro de 2020.